Qual é a importância do processo de paz entre Israel e palestinos?

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Israelenses e palestinos voltam à mesa de negociações nesta quarta-feira em Jerusalém

 

O processo de paz entre Israel e os palestinos interessa a alguém, além das partes envolvidas?

A questão palestina é realmente o problema central no Oriente Médio, como disse Tony Blair (o representante do Quarteto, formado pela ONU, Estados Unidos, União Europeia e Rússia, para a região)? Estariam ele e porta-vozes do governo britânico certos ao afirmar que a resolução do problema levará a mudanças amplas na região?

Ou será que, com a turbulência no Egito, na Síria, no Iraque e em outras regiões, a paz entre Israel e os palestinos se tornou uma questão à parte, não tanto um termômetro das tensões regionais, mas principalmente um confronto sem indícios de solução?

Com as negociações de paz prestes a serem retomadas na quarta-feira em Jerusalém, sob intermediação dos Estados Unidos, a sensação geral é de um déjà vu diplomático. Nós já vimos esta cena muitas vezes.

Há concessões, quase parte de um ritual, para dar início às conversas.

Nesta terça-feira, Israel libertou 26 prisioneiros palestinos, todos condenados por crimes ocorridos antes de 1993.

Em segundo lugar, há o nebuloso entendimento de que o governo israelense deve paralisar ou restringir novas construções em assentamentos judaicos, e o anúncio de Israel de que ainda assim continuará a construir nos territórios ocupados, o que é parte de uma estrategia do conservador governo israelense para aplacar a oposição doméstica, os membros da direita que são contra as negociações de paz.

Diante da divisão entre israelenses, sem falar da divisão dos palestinos (governados pelo Fatah, na Cisjordânia, e pelo Hamas, na Faixa de Gaza, sem mencionar grupos islâmicos mais radicais que se opõe a ambos os movimentos), a tentativa de retomada do processo de paz pelo secretário de Estado americano, John Kerry, pode parecer uma investida ingênua e destinada ao fracasso.

Entretanto, desta vez, duas tendências sustentam os esforços de Kerry e, segundo alguns analistas, fazem as atuais negociações mais importantes do que nunca.

A primeira é o sentimento crescente de que uma solução de dois Estados, com um Estado palestino estabelecido na Cisjordânia e na Faixa de Gaza existindo lado a lado com Israel, é cada vez mais improvável.

“A janela para uma solução de dois Estados está se fechando”, já indicou o chanceler britânico, William Hague.

Para quem pensa assim, a ocupação dos territórios palestinos por Israel corre o risco de se tornar permanente, abrindo caminho para um profundo questionamento da democracia israelense mundo afora, sobretudo no Ocidente.

A outra tendência é o caos e a incerteza trazida pela chamada Primavera Árabe. As revoltas populares culminaram na tomada do poder por militares, em situações de quase anarquia, quando não de guerra civil, e no reavivamento da violência sectária.

A crise na Síria também gerou questionamentos sobre as próprias fronteiras de alguns Estados estabelecidas após a saída das antigas potlências coloniais da região, no período posterior à Segunda Guerra Mundial (1939-1945).

Claramente, esses processos são profundos e devem continuar se desenrolando por um período considerável.

A paz entre israelenses e palestinos não vai solucionar qualquer um desses problemas. Sequer vai ajudar a resolvê-los.

Mas diplomatas ocidentais acreditam que a resolução de uma das mais espinhosas disputas mundiais poderia lancetar um abscesso diplomático que inflama paixões e tensões muito além do Oriente Médio e contribui para tornar ainda pior uma já péssima situação regional.

 

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