Na ONU, Dilma alerta sobre crise e defende Estado palestino*

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No primeiro discurso de uma mulher na abertura da Assembleia Geral da ONU, a presidente Dilma Rousseff cobrou nesta quarta-feira união dos países no combate à crise econômica internacional e “lamentou” ainda não poder saudar a presença de um Estado palestino nas Nações Unidas.

A presidente brasileira declarou que o mundo vive um “momento delicado e uma oportunidade histórica”, que pode derivar em “graves rupturas políticas e sociais sem precedentes” por conta da crise econômica.

“Ou nos unimos (para combatê-la) ou sairemos todos derrotados. A crise é série demais para ser administrada por poucos”, disse Dilma, pedindo ajustes fiscais nas nações afetadas por crises da dívida, combate ao protecionismo, e, em aparente referência à China, estímulo aos mercados internos de países superavitários e fim da guerra cambial – ou seja, de reduções artificiais do câmbio para beneficiar exportações.

Diante de um plenário lotado, Dilma iniciou o discurso – sua estreia em grandes fóruns internacionais – com aparente nervosismo, movendo-se de um lado ao outro.

Ao dizer que dividia com todas as mulheres a emoção de abrir o debate geral da assembleia, a presidente se emocionou e ficou com a voz embargada.

Ela foi aplaudida pela plateia em cinco ocasiões: quando se referiu ao fato de ser a primeira mulher a discursar na abertura do evento; ao dizer que, na língua portuguesa, as palavras “vida, alma e esperança” pertencem ao gênero feminino; ao elogiar a criação da ONU Mulher, órgão que defende a igualdade de gêneros; ao defender a criação de um Estado palestino; e ao pregar a reforma do Conselho de Segurança da ONU.

Reformas

A presidente afirmou que “a reforma das instituições financeiras multilaterais deve prosseguir, aumentando a participação dos países emergentes” em órgãos como o Fundo Monetário Internacional (FMI) e o Banco Mundial.

A presidente também pleiteou mudanças no Conselho de Segurança (CS) da ONU, do qual o Brasil historicamente aspira se tornar membro permanente, com direito a veto. Para a presidente, o CS na forma como está perde “legitimidade”.

Ao dar as boas-vindas na ONU ao Sudão do Sul, nação oficialmente criada neste ano, Dilma disse que lamentava “ainda não poder saudar o ingresso da Palestina” no organismo multilateral.

“Acreditamos que chegou o momento de ter a Palestina (como Estado independente) e reconhecer seu direito legítimo à soberania”, declarou. “Só a Palestina livre poderá atender aos anseios de Israel por segurança.”

As declarações de Dilma ocorrem às vésperas da possível formalização do pedido da Autoridade Palestina pelo reconhecimento da ONU ao Estado palestino.

O pedido, a ser feito pelo presidente da Autoridade Palestina, Mahmoud Abbas, durante a Assembleia Geral, enfrenta forte resistência dos Estados Unidos, que prometem vetá-lo no Conselho de Segurança, alegando que a independência só pode surgir de negociações bilaterais entre palestinos e israelenses.

Em discurso logo após o de Dilma, o presidente americano, Barack Obama, disse que “não há atalho para encerrar um conflito que dura décadas”.

“A paz não virá por meio de resoluções na ONU. Se fosse fácil assim, já teria ocorrido”, afirmou ele. Bastante aplaudido quando subiu ao palco, Obama não provocou o mesmo entusiasmo durante sua fala nem ao encerrá-la, arrancando aplausos discretos.

Primavera Árabe

Dilma também saudou em seu discurso os protestos da Primavera Árabe, dizendo que o Brasil “se solidariza com a busca pela liberdade”.

Mas a presidente criticou interferências “com o uso da força” em países atravessando revoltas populares e repressão governamental – em nova mostra da oposição do governo brasileiro à ação militar da Otan (aliança militar ocidental) na Líbia, feita com base em uma resolução aprovada na ONU.

Na opinião de Dilma, “é preciso que as nações encontrem uma forma legítima de ajudar (os países em convulsão)”.

“Estamos convencidos de que o uso da força é a última alternativa. A busca pela paz não pode se limitar a intervenções em situações extremas”.

Por fim, Dilma também disse que tem “orgulho de viver um momento histórico” de ser a primeira mulher a discursar na abertura da Assembleia Geral da ONU – pronunciamento este que desde 1947 fica a cargo do presidente brasileiro.

“Sinto-me representando todas as mulheres”, declarou a presidente, dizendo que a voz feminina é “a voz da democracia e da igualdade”.

O Brasil é responsável pelo discurso inaugural da Assembleia Geral desde sua primeira Sessão Especial, em 1947. À época, coube ao diplomata brasileiro Oswaldo Aranha o primeiro discurso da sessão, tradição que se manteve desde então.

*BBC

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