Golpe no Paraguai repercute no CRBE

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Colunista pede intervenção do governo no CRBE, cujo presidente tolerou pombo-correio com mensagens dos golpistas.

O Conselho de emigrantes, conhecido como CRBE, tem sido criticado ultimamente por falta de atividade, porém nestes últimos dias, durante a preparação e o golpe parlamentar no Paraguai contra o presidente Lugo, foi alvo de muita atividade. Fazendeiros brasileiros estabelecidos no Paraguai, os chamados brasilguayos, utilizaram o CRBE para enviar mensagens ao governo e autoridades brasileiras explicando que o golpe em preparação e o golpe consumado era permitido pela Constituição paraguaia.

Para explicar resumidamente, durante a ditadura de Stroessner, (cujo nome germânico nada tem a ver com os habitantes guaranis da região) houve doação de vastas glebas de terras a europeus e a brasileiros de origem européia, nas áreas mais férteis do país, na fronteira brasileira.

O objetivo era desenvolver a agricultura e esses recém-chegados criaram as bases para uma colonização agrícola do Paraguai. Hoje seus descendentes são os ruralistas e donos do agronegócio plantadores principalmente da soja. Fáceis de identificar, todos têm nomes alemães, italianos ou de origem européia.

Com eles também convivem os pequenos fazendeiros e agricultores vindos do Brasil sem pedigree europeu e juntos fazem parte da grande população de brasilguayos, cerca de 400 mil pessoas, muitos binacionais falando espamhol mas a maioria falando e escrevendo portunhol.

Quando a esquerda paraguaia conseguiu eleger Fernando Lugo presidente, foram os descendentes dos europeus que tentaram fazer secessão nas áreas onde dominam. Num país essencialmente agrícola, eles têm grande força econômica e política e o descontentamento desses fazendeiros veio do surgimento dos carperos. Quem são os carperos ? São os agricultores pobres, guaranis de origem, equivalentes aos nossos agricultores sem terra, descontentes com o fato de as terras paraguaias não mais lhes pertencerem. Fernando Lugo lhes prometeu reforma agrária, como ela tarda, eles invadem e se apoderam de propriedades.

Os fazendeiros paraguaios estão unidos pela defesa de suas terras na Union de Gremios de la Produccion, da qual fazem parte numerosas cooperativas agrícolas. Uma delas, a Coordenadoria Agrícola de Paraguay, ocupando o cargo de vice-presidente da Union de Gremios que, nos últimos dias, tinha decidido criar o caos no Paraguai interrompendo o tráfego nas estradas com seus tratores, o que lembra a ação dos camioneiros nos dias que precederam a queda de Allende no Chile.

Fernando Lugo tinha pela frente uma situação parecida com a de Jango Goulart com a prometida reforma agrária, dentro das reformas de base. E seu destino acabou sendo o mesmo de Jango com a diferença de que, no Paraguai, houve um golpe light e assético sem o envolvimento direto dos militares. Uma nova receita de golpe que deve deixar os países latinos de governo socialista com a barba de môlho.

E no que entra o CRBE nessa história ? Nas eleições para representantes dos emigrantes, no final de 2010, foram eleitos três representantes dosbrasilguayos , entre eles a advogada Marilene Sguarizi, defensora dos pequenos fazendeiros, muitos sem papéis de propriedade, temerosos de perderem suas propriedade. Mas ela igualmente está próxima das coordenarias agricolas ou cooperativas, que reúnem os ruralistas e os donos do agronegócio.

Ora, o CRBE é apenas um órgão de interlocução, consultivo ou de assessoria junto ao MRE, seus membros eleitos pelas comunidades emigrantes não têm competência e nem delegação do MRE para intervir em questões envolvendo relações bilaterais e soberanias de outros países. Mesmo no projeto de Secretaria de Estado dos Emigrantes não se pede esse tipo de competência e delegação, mesmo porque esse órgão institucional, se criado, será dirigido por titular de confiança do governo em colaboração com o MRE.

Esquecendo-se ou ignorando as limitações de seu cargo, que na verdade é minimalista, a advogada membro do CRBE assumiu a defesa dos fazendeiros já em fevereiro num encontro em Brasília. Como ninguém lhe deu um pito, desta vez, ela utilizou o canal do CRBE para enviar mensagens dos ruralistas na fase do golpe, para o presidente do CRBE, numa ação de pombo-corrêio.

Alertados por nós da incompetência do cargo para tal ação, nem a representante no Paraguai e nem o presidente reagiram suspendendo esse tipo de intervenção, que se opunha à decisão e linha do governo de condenar a tentativa de golpe e condenar o golpe. Ao contrário, sobraram para nós ofensas, mentiras e até ameaça.

Diante da cumplicidade consciente ou não, direta ou indireta do CRBE com o golpe no Paraguai, só nos restava a iniciativa de pedirmos, o que fizemos, a intervenção do governo da presidenta Dilma no CRBE, por ter ultrapassado, em choque com a política do governo brasileiro, sua competência e por ter agido sem delegação para isso.

E. como esperamos chegar ao governo esta coluna, mesmo porque será redistribuída pela mídia alternativa, só nos resta concluir com aquela frase padrão – Nestes termos pedimos deferimento.
(Publicado originalmente no site Direto da Redação)

Rui Martins, jornalista, escritor e líder emigrante.

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